Design Intuitivo e performance

Intuição
substantivo feminino
faculdade ou ato de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise.

 

Em quais momentos você faz uso da sua intuição? É possível executar um trabalho técnico sem perder a magia? Como viabilizar a produção de figurinos com poucos recursos? E como criar em momentos de ansiedade e tensão?

 

Esses foram alguns guias que inauguraram a oficina de Design Intuitivo e performance, maravilhosamente ministrada pela dupla dinâmica  Miss Immigration (identidade adotada pela bonita Euvira depois que partiu para Berlim) e  Léo Teófilo, designer de produto e artista da moda responsável por executar todos os looks bafônicos de Miss Immigration em festas consagradas como a ODD, MAMBA NEGRA e Carlos Capslock (SP).

 

Do lado de cá da telinha (e do Atlântico), participantes de vários pontos da terra brasilis que atuam em segmentos também diversos marcaram presença para aprender, trocar, criar e compartilhar ideias pessoais e coletivas. Pessoas de Beagá, São Paulo, do interior da Bahia e do Rio Grande do Sul. Vantagens do online.

 

 

O online permite esses encontros, mas também traz novas exigências de performances e ferramentas. Por isso, nem só designers e performers estiveram presentes na oficina. Participaram também, por exemplo, um professor de colégio e uma professora reikiana, afinal, construir um processo criativo é prática que pode (e deve!) ser aplicada a qualquer profissão, especialmente em um momento de ruptura que naturalmente nos impõe várias transformações.

A nós nos resta… transformar

 

Performar diz muito dessa oportunidade que temos de transformação, de ser surpreendente e extraordinárie; de renascer, se reconstruir, reinventar a nós mesmos e os espaços que ocupamos. É sobre se expressar, marcar presença, se comunicar, existir.

 

Imaginar possíveis transformações (para si e para nosso pedaço de mundo) foi um exercício constante para a turma, afinal, é a partir desse exercício que conseguimos gerar impacto. Por meio de nossos corpos, que estão sempre performando, somos capazes de provocar, estimular, chocar e dizer muita coisa em linguagens não-verbais. O design é uma continuidade desse corpo que fala, e agrega muito mais sentido à performance.

 

Desenvolver figurinos é criar relações estéticas e semióticas em diferentes níveis, que vão desde o nosso mundinho interior até o que nos é externo. Ao performar, manifestamos valores, paixões, raízes, sonhos e medos; externalizamos o que é visceral; conferimos política ao que temos de mais potente: nosso corpo. No que toca especialmente ao universo das festas e da noite, performances e figurinos são uma extensão desses momentos — os corpos são a base para uma grande obra artística e, sem dúvidas, partes essenciais da festa. O papel da performer é potencializar nossos sentidos, fazendo com que a gente consiga enxergar a música, para além de ouvir e dançá-la. Aleluia arrepiei!

 

Por isso e por muito mais, um figurino nunca é só um figurino. Ou pelo menos não deveria ser. Ceci n’est pas une montação, apenas, e quanto mais conceito for agregado ao longo do processo de criação, mais impactante será o resultado. Para definir o conceito, é importante partir da identidade visual da festa e somar a ela suas próprias viagens, referências e (ins)pirações.

 

Miss Immigration levou para Berlim muito mais que sua bagagem física, mas todo um universo de vivências latinas. Cores, acessórios e sua própria ancestralidade ajudam a compor sua identidade. A mudança de nome também foi peça-chave nesse processo de reinvenção: mudar de nome muda sua identidade e naturalmente você vai se (re)descobrindo, se propondo a novas coisas. Suas maiores referências estéticas são latinas e afrofuturistas, trazendo em seu trabalho um poderoso resgate cultural, artístico e filosófico de sua história.

 

Foto: Instagram Miss Immigration

 

Quem eu sou?
Como me vejo?
Como faço?
Tou pronta!
Tou bonita?

 

Depois dessa checklist coletiva babadeira, muitos exemplos visuais, exercícios práticos, dicas de garimpo e aprimoramento, a turma sai do último encontro com a cabeça borbulhando de novas ideias e certamente com mais maturidade criativa. Entre peças coringas, achados únicos inusitados, uma intuição apurada que sente e sabe onde procurar, muita coisa brilhante vem ao mundo. Ainda bem!

Produção Musical com Autonomia

Computador com internet, fones de ouvido, criatividade e dedicação de duas horas por dia. Pronto, está dado o primeiro passo rumo à produção musical. Passados pouco mais de 130 anos desde o surgimento do primeiro sintetizador, que ocupava muito espaço, era pouco acessível e exigia dias de trabalho para produzir sons, hoje vivemos um momento especial, com possibilidades simplificadas e multiplicadas pela Era Digital. 

 

Programas e plugins decodificam com precisão a linguagem sonora dos equipamentos analógicos. Aliados à nossa imaginação, permitem criar desde beats básicos até arranjos mais complexos e diferentes de tudo que costumamos ouvir nas pistas, lives e DJs sets por aí.

 

A oficina Produção Musical com Autonomia, ministrada pela super produtora e DJ paulistana Mari Herzer (MAMBA NEGRA), traz um apanhado completíssimo que introduz quem participa à interface e funcionalidades do Ableton Live. Além disso, Mari propõe que cada alune se aventure na criação de um beat básico, aprimorando-o posteriormente, bem como ensina técnicas incríveis que viabilizam formatações menos tradicionais da música eletrônica e permitem o desenvolvimento de sons criativos a partir de ferramentas simples do Live, também para outras finalidades.

 

Nos links a seguir, você tem acesso ao material de apoio compartilhado pela Mari nos 3 encontros.

 

 

 

 

Foco, que aqui vamos nós! 

VJ: como ficam os visuais na pandemia?

A luz piscando na mesma frequência da música parece sincronizar também cada corpo pulsante na pista. Há exatos 9 meses que não sentimos o grave vibrar nossos corações dessa maneira. Há 9 meses que ressignificamos, dentre tantas outras coisas, nossos encontros e a provocação múltipla de nossos sentidos. Dez anos em um. É assim que Brayhan Hawryliszyn, Yonanda Santos e Breno Oliveira que juntos formam a MIR Estúdio — sentem-se em relação às novidades e transformações das práticas e criações visuais durante a pandemia. 

 

Especialistas em encontrar soluções de tecnologia criativa para os mais variados tipos de eventos, o trio compartilhou, em 3 dias de oficina, uma fonte riquíssima de referências, experiências, softwares e perspectivas para o trabalho de visuais a partir do cenário pandêmico. Abra o bloco de notas e prepare sua memória RAM e placa de vídeo, vem coisa grande por aí!


De volta para… o futuro

 

A oficina VJ: como ficam os visuais na pandemia? trouxe um spoiler do que nos aguarda daqui pra frente. Situações que há um ano eram improváveis, hoje se mostram não só possíveis, mas também necessárias, como foi o caso da primeira apresentação da Mientras Dura na pandemia: a dupla de DJs tocando ao vivo, de Belo Horizonte, em uma festa via Zoom, e o VJ criando as intervenções visuais também ao vivo, porém diretamente de sua casa em São Paulo. Parece mágica, parece futuro, mas é, sobretudo, o real-virtual presente que estamos vivendo. 

 

 

Aliás, por falar em presente e futuro, vamos dar um pequeno pulo no passado: a galera do video-game trilha esse caminho há 20 anos, criando uma realidade virtual que case perfeitamente o tripé que sustenta também nossos eventos: online, em tempo real e com qualidade de cinema. É como se agora a gamificação invadisse vários outros segmentos: shows, festas, eventos corporativos, desfiles de moda… Como bem colocou Mark Melling, diretor de Marketing do RYOT Studio, hub de tecnologias imersivas da Verizon Media, “a Covid não aumentou a demanda por experiências de VR [realidade virtual], ela acelerou a demanda. É natural que, à medida que a tecnologia melhore, as pessoas desejem experimentar o digital da mesma maneira que experimentam o mundo real. Era nessa direção que o mercado já estava se movendo. 

 

Uma aceleração forçada? Sim, afinal, estamos falando de uma década em um ano, mas também inevitável. Desde o início da pandemia, estamos vivenciando uma intensa virtualização de nossas atividades, sejam elas de trabalho ou lazer. Manifestações artísticas e culturais também estão nesse processo, cultivando um cenário virtual que pode ser acessado por, literalmente, todo mundo. Muito mais do que acessar, queremos participar ativamente e interagir com os outros elementos desse meio interligado por um fio invisível. Não é sobre consumir produtos, apenas; mas sobre viver novas experiências e se sentir parte daquilo. Essa é uma das poucas coisas que não mudou, a valorização da experiência.

 

E ao pensarmos no que temos vivido, o objetivo não é recriar as situações do mundo real no ambiente virtual, mas encontrar novas possibilidades e propor algo diferente. Formatos híbridos estão mostrando sua potência e, de acordo com Brayhan, que atua como VJ desde 2002, serão muito úteis inclusive no pós-vacina (sim, irmãs, esse momento há de chegar!). Vai se preparando porque ver aquela DJ bafo de outro continente projetada em um palco de uma de nossas festas será uma realidade bastante possível. 

 

A produção virtual é uma grande aposta para o futuro, seja em relação a festas, cinema, ou publicidade. Aqui e agora ela já se mostra como grande uma ferramenta poderosíssima que viabiliza novos formatos de interação. Oras, se derrubamos barreiras físicas e não necessariamente precisamos compartilhar o mesmo espaço para criar intervenções visuais ao vivo, isso significa que podemos inventar muita moda de onde quer que a gente esteja! 


De onde vem a inspiração?

 

Inventar moda não é fácil. Ser VJ é estar constantemente em busca de referências, mesmo que inconscientemente. Um filme, um clipe no youtube… a qualquer momento pode estalar uma ideia que faz todo sentido para o seu projeto. Por isso, a primeira dica é lançar um olhar sempre atento a tudo e absorver as referências. Isso, é claro, depois de desenhar seu projeto e definir os principais conceitos. A etapa de conceituação e briefing é crucial porque é a partir dela que tudo se desenvolve, mas sentir a energia do momento e das pessoas também é muito importante. Nada é engessado, muito pelo contrário… 

 

Depois, se ligar nas tendências e sites/perfis que compartilham imagens e projetos. Existe um universo vasto que possibilita descobertas diárias. Saiba onde procurar, participe de grupos, conheça outros artistas, troque conhecimento. 

 

Algumas referências para curadoria de conteúdo compartilhadas pelo pessoal do MIR para você mergulhar de cabeça e conhecer o trabalho de VJs do mundo todo:

 

Imagem: Beeple

 

Já em relação aos softwares, quem participou da oficina teve uma verdadeira aula, decifrando interfaces, códigos, técnicas e macetes. Os softwares usados/citados foram

 

Resolume Anima – Pago, mas a versão gratuita traz todas as funcionalidades (a diferença é que o projeto fica com marca d’água, mas é totalmente suficiente para quem quer se familiarizar e praticar o VJing. O Resolume controla e mapeia vídeo, luz, sons externos, e permite criar vários set-ups em um mesmo projeto. 

 

Unreal Engine – Um kit de desenvolvimento criado pela Epic Games e que vem sendo aprimorado há quase vinte anos. Engines são conjuntos de programas e bibliotecas que funcionam como utensílios genéricos para itens como criação de personagens, cenários, e a programação da inteligência artificial em projetos. Esse é um software mais complexo: um pouco de VJ, um pouco de programação… 

 

OBS – Principal software gratuito de streaming e gravação, que permite várias integrações. 

 

Shotgun – Plataforma 100% voltada para eventos e festas online, tem inúmeras funcionalidades, exige uma ótima conexão que não deve ter a rede Wi-Fi como fonte.

 

Lumikit – Controle de iluminação. Incluir a iluminação, para além do som e vídeo, deixa o combo VJ ainda mais completo. 

 

Grandes eventos que se reinventaram e vale a pena conferir:

 

CCXP 2020: a Comic Con um superevento para fãs de HQ, filmes, livros e cultura cosplay. Neste ano, toda a programação foi digital, mais de 150 horas de conteúdos inéditos, 250 lives simultâneas e milhões de visitantes.  

 

Festival Amazônia Mapping: um dos mais importantes eventos de mapeamento do Brasil, que levou arte e tecnologia para o coração da Amazônia (em realidade aumentada, é claro). Assim como o Clubbers da Esquina, o festival foi redesenhado para acontecer online e com programação totalmente gratuita, nos transportando para uma ilha amazônica virtual!

 

Show game do Travis Scott no Fortnite: sim, os gamers do famoso jogo Fortnite vivenciaram ~~ de pertinho ~~ um show exclusivo do rapper Travis Scott. O evento bateu recorde de arrecadação da franquia Epic Games, e o artista faturou 20 milhões de dólares com o projeto. Pabllo Vittar e Charlie XCX também já se apresentaram dessa forma no jogo Minecraft. 

 

 

Seja na noite ou em eventos corporativos, hoje não é possível falar dos processos de criação visual sem pensar em intervenções online. Estamos nos transformando. Todo o fluxo de produção e pesquisa de conteúdo, bem como as mixagens visuais, são um universo em constante expansão. Para além de camadas, formas e modulações, “VJzar” é arte sinestésica, e os sentidos somos nós quem imaginamos, criamos, reinventamos e… sentimos.   

 

A sementinha foi plantada. Além de todo o aprendizado técnico e da imensa troca que rolou entre a turma e os integrantes da MIR (que estão mega satisfeitos com o resultado de sua primeira oficina), já existem planos para o pós-pandemia. Agora, em um grupo do Telegram, o papo continua — e já existem convites para os alunos participarem do projeto de visuais da próxima Mientras Dura presencial, bem como planos para mais oficinas ministradas pela MIR. É sobre isso!

Entrevista com VHOOR

VHOOR  é um clubber da esquina real oficial. DJ, beatmaker, produtor, o menino prodígio de BH vai se apresentar na primeira edição do Festival e trocou uma ideia com a gente sobre seu processo criativo, suas referências e o que anda produzindo nesses últimos meses. Solta a braba pra gente, VHOOR! 

Eaí, VHOOR! Além de DJ, beatmaker, o que você gosta de fazer no seu ócio criativo?

Eu amo assistir a documentários, adoro ver como funcionam novas culturas, pessoas diferentes.  Acho tudo muito incrível.

Assim como a MASTERplano, você é de BH. Como você vê a cena eletrônica de BH hoje? 

Eu acho que estamos no caminho certo, BH tem festas muito reconhecidas por susa singularidades, DJs incríveis e um público apto a conhecer novas coisas.

Baile e Drip é seu mais novo lançamento. O que pensou quando partiu para essa criação? 

Baile & Drip é meu terceiro álbum feito em isolamento.  Eu estava escutando muito beat underground da cena de trap dos Estados Unidos, peguei várias referências e quis experimentar, acho que o resultado ficou muito legal.

Várias criações suas se tornaram verdadeiros virais na internet. Como é sentir esse reconhecimento global? 

É muito incrível, saber que meu som chega em lugares que eu nunca imaginei que pudesse chegar é uma sensação única.

Quando escutamos seu som sentimos toda a força do Trap, do Funk e da Periferia brasileira. O que a periferia de BH grita hoje?

Eu acredito que a periferia de BH, como todas as outras, é um polo muito fértil de talentos, as manifestações culturais periféricas da cidade são únicas.

Além do Baile Room, quais outros projetos e coletivos você participa na cidade?

Além da Baile Room, eu faço parte do coletivo Muvuka junto com meus amigos D.A.N.V. e a DJ Kingdom que tem o enfoque nas variações da Música Afro pelo mundo, e do coletivo Beagrime onde tocamos Bass com influência de Londres. 

E aí, VHOOR! Solta a braba pra gente! O que vai apresentar no festival Clubbers da Esquina

Vou tocar várias músicas inéditas e colaborações incríveis com artista brabos haha.

Entrevista com Data Assault

Data Assaut é assalto de dados. Pane no sistema, alguém me desconfigurou. Direto do planalto central para as ravers online de todo mundo. Falamos com ele no online sobre hackeamento, dominação do Distrito Federal, planos de rave e suas últimas produções. Vem ler esse código com a gente! 

Data Assaut, você se considera um hacker? Se sim, por quê? Se não, porquê não?

Me sinto exatamente assim. Invadir sistemas, reprogramar mentes e destruir as bases do poder vigente, 24/7 na missão.

O que é necessário para hackear a paisagem de Brasília e produzir um rolê, um som? 

Brasília é uma cidade isolada em si mesma, tudo aqui é longe, caro e proibitivo, o maior poder pra fazer qualquer coisa aqui é a união, senso de coletividade e pertencimento na cena, e também abraçar causas maiores do que a rave, essencial se engajar politicamente pra fazer acontecer.

Para você, o que tem rolado de mais interessante na cena eletrônica da sua cidade?

Tem rolado umas movimentações muito legais dos coletivos na intenção de tornar Brasília uma cidade menos TRISTE, e menos excludente. Eu adoro a energia das raves por aqui, e delas surgiram várias djs fodas que vem botando as caras de um jeito muito singular, Malu, Giograng, Slow, Armenia e FAA são algumas delas.

Produção musical e DJ set? Onde você se sente mais à vontade no seu trabalho?

Rave é o meu esporte favorito, amo construir dj sets e tocar por horas seguidas, mas também amo fazer música e produzir um material fruto de longas horas no estúdio. Os dois se complementam na minha visão.

Recentemente o RHR fez um remix para sua track “Surviving in Hell”. Como nasceu essa parceria? 

Conheci o RHR num evento que eu tava produzindo, eu me senti muito inspirado pela presença dele aqui, a gente compartilhava de vários valores, tivemos e temos várias experiências de vida parecidas, e a admiração que eu tenho por ele é muito forte. Acho que ele foi uma das primeiras pessoas que deram uma atenção para os trabalhos que vinha produzindo, acho que quando rolou esse EP ele literalmente foi a primeira pessoa na qual eu pensei pra esse remix. 

Música eletrônica e pandemia. Como você acha que o isolamento irá afetar a música eletrônica no nosso país?

Afetou drasticamente a relação dos coletivos e djs com o seus respectivos públicos, o que é parte essencial, mas apesar disso eu achei muito legal ver várias iniciativas digitais para amenizar os efeitos do isolamento e movimentar a cena. 

Você vai para uma ilha deserta e pode escolher um único desejo. Um CDJ com pendrive com todas as tracks do seu HD ou um computador para produzir à vontade? 

Escolhendo as CDJ, o mixer pode ser o Xone 92? 

Conta pra gente sobre o que você tá preparando para o Festival Clubbers da Esquina. 

Eu separei algumas produções autorais e nacionais, juntei tudo numa programação de alta eficácia em transferencia de dados. Tem tudo pra dar certo, vamos aguardar. 

Entrevista com Lila Tirando a Violeta

Já dá pra sentir a brisa fresh do Río de la plata! É que conversamos com Camila Dominguez, a mente por trás do projeto Lila Tirando a Violeta, que vem de Montevidéu (Uruguai), para se apresentar no Clubbers da Esquina. Lila é DJ, produtora, artista performática e uma das integrantes do selo NAAFI. Seu trabalho bebe de referências como perreo, reggaeton, PC music, cultura gótica e anime. Ela participa do festival junto com sua amiga, a artista Hiela Pierrez, e antes disso, ela bateu um papo com a gente. Disfruté mucho!

Oie, Lila! Como anda a vida em Montevidéu?
Estamos no início do verão, tudo muito tranquilo por aqui. Por sorte tocamos ao vivo pela primeira vez no ano, na semana passada! Foi muito bom voltar aos palcos.

Anime, estética gótica, perreo, anos 90 e muito mais. O que passa na sua cabeça quando está fazendo um set? 
Eu adoro a ideia de fazer um híbrido de estilos, para que o set seja uma produção que mude de forma e tempo radicalmente. Nem gosto tanto de contar uma história, eu prefiro transmitir sensações como se fosse uma música inteira de 50 minutos. 

Teu projeto A.M.I.G.A é incrível! Quando e como começaram este duo?
Muito obrigada! Comecei com Hiela Pierrez há três anos. Tínhamos projetos juntas antes. Nós duas queríamos encarar um projeto inclusivo e autogestionável, tão performático como sonoro, que soaria como uma espécie de PC music latino, algo que sentíamos falta na região. E assim foi acontecendo.

“Verano 2020” será melhor que o de 2019?
Isso era o que a gente esperava, mas infelizmente não aconteceu por causa do Covid. Temos que fazer uma canção dedicada ao Verão de 2022, esperando que esse seja sim melhor. 

Você é uma das integrantes do NAAFI, um coletivo muito importante para a música eletrônica latinoamericana. Como é a experiência de trabalhar com esses artistas?
É genial! De verdade, foi uma honra para mim lançar um álbum com eles. Me fascina o que todes artistes do selo fazem. São uma inspiração e inovação total. 

Como é a cena eletrônica de Montevidéu? O que você mais gosta daí? E o que você não gosta?
Montevidéu é uma cidade pequena, mas com uma cena alternativa muito potente. Eu gosto muito do que tem nascido aqui nos últimos anos, que é um grande movimento de artistas emergentes com muitíssimo potencial. O que eu não gosto é que, no geral, não há recursos, nem financiamento para o estilo de música que fazemos e às vezes a autogestão se torna algo ruim. Espero que isso mude com o tempo. 

Como você imagina o apocalipse na terra?
Eu imagino como em Akira ou Mad Max, distópico, Neo-Montevidéu 2047. 

Como será seu set para o Festival Clubbers da Esquina?
Será um set muito dinâmico que realizo junto com a minha amiga Hiela Pierrez, incluindo várias de nossas canções e passando também por remixes de grandes hits desconstruídos para dançar muuuuito. E como de praxe, tudo com muita performance e humor. 

 

 

 

Entrevista com Kid from Amazon

Club Kid que nada. Aqui é Kid from Amazon, o produtor que vem de Belém do Pará para o nosso festival Clubbers da Esquina. Já conhecíamos o trabalho desse artista há tempos e aproveitamos a presença dele no lineup para falar sobre música, sons de Belém, coletividade e, claro, o que move a cabeça dos artistas na produção musical. Senta e confere o papo!

Kid from amazon, como começou seu interesse por música? Foi na infância? Conta pra gente um pouquinho. 

Quando eu era muito pequeno comecei a fazer aulas de canto e eu sentia um instinto muito grande de ter muitas músicas escritas. Lembro que com uns 9 anos eu já tinha um caderno com várias letras. Eram letras completamente aleatórias que eu escrevia e cantarolava um ritmo, as letras não variavam muito. Iam de amor à venda de órgãos (essa aqui eu lembro de escrever e cantar ahahahha). Quando eu comecei a ter aulas de flauta, comecei a fazer coisas mais melódicas enquanto os números de canções aumentavam, e instrumentos como panela e colheres de pau e beatbox agressivos começavam a integrar a banda de uma criança só. Quando tive o primeiro computador, em 2006, para mim ainda era impossível produzir canções, eu achava que eram coisas de estudios enormes, e continuava fazendo daquela mesma maneira, que a Sophie copiou década depois (kkkk?). E então teve uma época em que eu já tinha experiência em crackear programas, consegui instalar o fl studio, mas não tinha instrução nenhuma e eu produzia tudo muito aleatoriamente. Teve uma transição enorme entre esse período e o momento que fiz meu primeiro projeto Alpha Magic em 2012 e então o Kid From Amazon em 2014. Com inúmeros tutoriais de youtube e técnicas envolvidos.

Cena eletrônica em Belém do Pará. Como você vê a cena daí hoje?

É uma pergunta muito recorrente, e nem sempre tento tratar disso com eufemismos. 99% dos roles eletrônicos são extremamente limitados. São arquitetados para reproduzir outros mesmos rolês. A investigação do novo, independente de ser do novo que está rolando em algum lugar do mundo, pesquisas sonoras multiculturais, ou do novo que seja pulsações sonoras únicas e instintivas, apesar de já haver rolês que misturam inúmeros gêneros, tudo é muito arquitetado, as referências são muito parecidas e é muito raro, eu pelo menos, me sentir saciado com a “variedade” de rolês eletrônicos que existem aqui. Aqui o poder da imagem patriarcal valida muitas pessoas e também invalida muitas outras. A infraestrutura é sempre restringida à esses indivíduos, como em todos os lugares, mas aqui isso influencia extremamente em uma cena fragilizada que tenta muito timidamente acontecer. Temos inúmeros artistas, músicos, djs, produtores mega talentosos que tentam mudar as coisas há tempos, muitos desistem de tentar, simplesmente não há espaço ou interesse do público.As coisas bem recentemente tem mudado e estamos caminhando para um dinamismo, que apesar de tardio, parece bem promissor.  Mesmo assim, por muito tempo, minhas propostas, depois de uma década tocando nas nights, muito raramente são bem aceitas e há um desrespeito muito grande envolvido em inúmeros aspectos.

Quais suas maiores referências musicais hoje?

Acho que tudo aquilo que me influencia tá correndo na veia em tudo o que faço, ontem, hoje e amanhã. E é curioso a salada musical que percorre aqui hahah!! Eu sempre fui pesquisador de fóruns musicais e sites musicais no geral, e dedico uma boa parte do meu tempo para fazer novas pesquisas sonoras. Quando eu gosto de algum artista, eu fico o resto da vida escutando, às vezes até ouvindo a mesma música! Tenho referências enormes aqui da minha cidade, como O Pnk Sabbth, o Sidou, a Genoma, e muita mais gente. Tem vários djs e produtores aqui que me ensinam muita coisa e são uma grande referência para mim, como o Bauê e o Chico sem nome de Castanhal, que produzem do noise ao ambient em uma perspectiva muito particular. Entre outras produções mundiais que me identifico demais, no momento estou obcecado com o trabalho do Palmbomen II titulado I’m Cindy, é algo que se conecta muito comigo. Tem referências que me acompanham muito desde o início da minha carreira como o trabalho da Sapphire Slows, o primeiro álbum do The Knife. Outros artistas que sinto demais que percorrem aqui é o Delroy Edwards, Unknown Mobile e a NKISI. Me sinto muito conectado com a sonoridade de vários artistas de shoegaze eletrônico também como Tropic of Cancer, Jesse Ruins e White Poppy e vários outros também. Tenho uma lista que ouço há uns bons anos com artistas de shoegaze que não troco por nada. Ruídos e texturas são grandes inspirações.  Apesar de ter resumido bastante minhas refs, não posso deixar de citar Roza Terenzi também que praticamente me introduziu ao house e techno com bpms mais elevados. É uma grande referência hoje pra mim para o novo rumo musical que tenho tomado.

Religião ou delírio? Seus sets são muito percursivos e espirituais. Como você se organiza para construir um live set?

O Workflow muda sempre, mas sempre gosto de trabalhar com a tateabilidade, de fechar os olhos e imaginar novos sentidos do corpo humano entrando em contato com a música, que nada mais é que estações e fenômenos ainda não identificados completamente arquitetados para estarem ali, em formato wav e variações, encapsulado e servindo ao tempo. Gosto muito de trabalhar com as ferramentas para produzir ambientes entre o orgânico e o sintético, entre a rocha e a água,  do alto dos céus aos pontos mais extremos não identificados da terra, do oceano, e a interseções físicas e espirituais, visíveis e invisíveis entre esses lugares. 

Poderia nos explicar o que você chama de “ambient brega”? Vi esse gênero num post no seu insta e amei a categoria musical. 

Isso deve ser coisa do Sidou hahaha, ele tem trabalhado com maneiras bem inusitadas do technobrega, por isso devo ter repostado ou algo assim. O Chico Sem Nome de castanhal também tem feito algumas subversões desse gênero daqui, com muito noise. Eu acho que o brega afeta tanto a gente aqui que é impossível de negar a influência que faz no nosso trabalho e no nosso modo de viver. Ataques de sintetizadores melódicos, vozes agudas, graves imprevisíveis que se repetem são elementos importantes em muitas composições minhas e que também são marcas registradas do brega.

O vortexp2p é um coletivo que você faz parte aí em Belém do Pará. O que une vocês? Que tipo de atividades vocês fazem aí na city?

Sim, formamos a Vórtex ano passado, em março aproximadamente, e tem sido uma experiência maravilhosa de aproximar pessoas com visões próximas sobre as cenas daqui. O maior gás para fazer a Vórtex veio depois de um lançamento que fiz em 2018, em que chamei uma galera para tocar e então assimilei que era a primeira vez que esses artistas estavam se apresentando, e isso refletia imensamente a falta de compromisso das cenas culturais daqui com esses artistas inovadores. Muitos aqui produzem de forma muito escondida, alguns até com  menos de 10 seguidores no soundcloud e toda essa falta de reconhecimento e de vivência coletiva é extremamente trágica. Acho que transpassar aquilo que esperam de ser produzido daqui do Norte, e ressignificar a nossa cultura para fora de valores e estéticas cristalizadas é algo que nos une muito. Fizemos 3 eventos em 2019, também estamos postando o trabalho da galera pelo soundcloud e divulgando também pelas mídias, também contamos com algumas produções oficiais no youtube. Basicamente esse é o nosso modus operantis, recrutar a galera e viver isso coletivamente. Em um ano já foram uns 7 artistas tocando pela 1 vez, e várias outras figuras clássicas da cena que também tentam há um bom tempo mudar essa monotonia.

Como acredita que a cena eletrônica de Belém será pós pandemia?

As perspectivas são boas especialmente, pois o isolamento nos fez repensar muitas coisas, em alguns lugares já reabertos e até mesmo antes da pandemia já se percebe um gigante tentando sair de uma caixinha, acho que a mesmice uma hora satura e algo diz que a galera tem percebido isso. Não digo de uma perspectiva onde os valores que tenho são maiores do que o de valores de alguém que se beneficia e se satisfaz com a cena atual daqui, mas que há a necessidade da integração e reconhecimento e validação de novos valores. Quando todos se libertarem musicalmente, perceberão a potência que são, em especial por pertencerem a esse ecossistema, a essas filosofias e infinitos signos culturais em que a música está sempre presente. No fim de tudo, o bem prevalecerá.

Para terminar, gostaria de saber um pouquinho sobre o que podemos esperar para o Festival Clubbers da Esquina. 

Vou montar um live set inédito, realizado integralmente para o festival, e que traduz muito do que passei nesses últimos 7 meses em casa. Feito com muito amor pela música, que é o que me dedico e continuarei me dedicando. Faça chuva ou faça sol. É isso! ♥ kisses from kid from amazon

 

 

Entrevista com Saskia

Direto das terras geladas do sul do Brasil vem Saskia. Esta DJ, produtora e artista nos presenteou no ano passado, com um disco incrível. Saskia trocou uma ideia com a gente sobre a correria DJ, live set, playstation e futebol em campo de várzea. Afinal, tocar é uma atividade física que poderia muito bem estar nos jogos olímpicos. Saskia tem uma relação forte com BH  e ilustra bem a ponte de amor e amizade entre BH e Porto Alegre. Aproveitem a entrevista! Esse papo foi uma delícia!

Oie, Saskia! Ainda tá na nossa memória o set incrível que você fez com o PV 5000 aqui em Beloris. Estamos lokitas para esse retorno, ainda que online. O que lembra daquele dia?

Nossa mano, um dos momentos mais cruciais da minha vida! Me lembro de não conhecer PV, me lembro de só ouvir rumores e achar que fosse uma pessoa fechada e esquiva, daí fomos pra BH juntxs e na ida fomos nos conhecendo. CLARO Q DEU MATCH, NEH? Trocamos altas ideias e comecei a me sentir muito confortável ao redor dessa criatura. Chegando em BH, nós íamos ficar em casas separadas, mas eu estava tão apegada ao PV que quis ficar junto com ele. Me lembro de dizer “Quero ficar na casa do amigo do PV, o tal Pedro Pedro ” (risos). Nem sabia que Pedro ia conhecer PV pela primeira vez, assim como eu. Acabei ficando na casa dele com PV e ainda colou o Martinelli (DJ MTN 9090) que também começou comigo uma amizade que mantemos até hoje. Claro que os dois DJs ali estavam se coçando para pedir a famosa e famigerada CDJ da Masterplano, que estava encaixotada em algum lugar da cidade. Eu nem sabia o que era uma CDJ até então. Montaram os equipamentos na sala onde estávamos dormindo (dormidão gostoso foi aquele, credo), e eu comecei a me interessar por aquela nave ali cheia de botões piscantes. PV e Martinelli me deram as dicas, vou contar como eu ouvi na minha cabeça : ” Olha, quadrado é para pular, triângulo para atirar e aqui tu corre para frente” (risos), e com esse mini tutorial, eu peguei as músicas que eu tinha no celular (pq eu ja era uma DJ em potencial) e fiquei treinando ali na cdj enquanto eles ficavam tomando cerva na cozinha. E eu virei track, virei track, virei track até viciar, até me emocionar. Pensa numa criança que está sozinha com o playstation4  do irmão, pensa na emoção e do sangue nozói, era eu ali. Eu me animei tanto que, naquela mesma semana,chegou uma tatuadora que morava na casa e eu disse “TATUA UM MIXER EM MIM”. E saí por aí cantando em ritmo de funk: “Agora eu sou Dj, pode contar comigo o bpm que eu sei”. 

Eu me deslumbrei tanto com BH, com os belorizonters, com a CDj e a DJ life que eu perdi o avião de volta pra Porto Alegre. O mais incrível é que todo mundo me apoiou para bolar um show, onde na porta eu levantei a grana para comprar a passagem de volta. Na hora desse show, a fonte do meu PC simplesmente se desmembrou, e cantei minhas letras em cima do DJ set de PV. Foi muito lindo, eu consegui a grana pra voltar, voltei com coração apertado e preenchido. FOI TUDO!

DJ Set x LiveSet? Qual a onda que você sente em cada um?

Então, já puxando que foi BH que me fez DJ, eu sempre tive mais contato com live, mas me divirto muito mais sendo DJ. Eu desenvolvi essa metáfora sobre a diferença entre os dois: Imagina que live é jogar futebol, e DJset é jogar FIFA no playstation. Os dois são divertidos, mas tantos prós quanto contras. Às vezes uma pelada cansa, as vezes a gente está descalço e o chão é de terra e fazemos gols muito belos. O live exige bastante do corpo, é o corpo que traduz a mente e preenche o espaço do palco, é o corpo que conversa com o público.No playstation, vc aprende jogando, morrendo e começando o checkpoint todo de novo até passar de fase e ficar mais forte. Às vezes a sala está cheia dos amigos do seu irmão mais velho e eles jogam muito mais que você, mas mesmo passando vergonha você quer tentar jogar mais, quer aprender, quer treinar, e uma hora o seu próprio irmão (que no meu caso eh PV) vira para você e diz “Cê ta jogando bem, hein?” e assim você ganha o jogo.

Na CDJ,  toda vez que você joga, você está aprendendo, e você está sempre querendo passar de fase, virar mais uma track, apertar mais rápido os botões. Cada vez que você vira uma track, você quer virar outra, e você quer testar suas tracks, quer testar o que você baixou. Eu acho divertidíssimo e eu me orgulho de poder dizer que eu sou DJ, com o privilégio de ter aprendido direto na CDJ. Mas também quem não gosta de suar no live, né? Fazer aquele gol de bicicleta e pá… (risos)

Seu disco “PQ” é um trabalho muito foda com a participação de vários artistas igualmente fodas. Como foi o processo de escolha dessas parcerias?

No meu álbum, eu pude fazer tudo que eu já sonhava. No caso, eu já sonhava em ter uma música com Edgar, inclusive no final da minha residência na Redbull, ele disse ” Tô só esperando tu me mandar esse beat, hein?” e eu aceitei o desafio. Tantão era uma voz e uma poética que eu já prestava atenção, mas ainda não tinha conhecido. Muito louco conhecer o Tantão. Ele é que nem o Taz, um caos por fora, mas um fofo por dentro. Me lembro que quando me apresentaram a ele, ele me odiou, ficou se fazendo, porque obviamente eu ficava olhando para ele com cara de retardada (risos). Mas logo ele foi se abrindo para mim e no estúdio nos encontramos, ele pediu para eu dirigir ele, eu escrevi algumas frases e ele mudou outras.

Os sopros eu também sempre quis, eu enchi o saco da Ava Rocha e do Negro Léo, que nem uma criança na loja de doces puxando a barra da calça dos pais dizendo: ” EU QUERO SOPRO, EU QUERO SOPRO, POR FAVOR, EU FUI BOAZINHA O ANO TODO”. Foi difícil chegarmos a uma conclusão de como faríamos, mas conseguimos chamar Marcos Campello e Andre Ramos para fazer birutagem em estúdio.

No mais, das parcerias, muitos são meus amigos, que já me acompanhavam desde que eu comecei, e já eram uma influência recíproca. Marcelulose e Leo Pianki foram no estúdio comigo em Porto Alegre, participando do primeiro processo, primeira imersão. Foi induvidável que eu usaria as pérolas que saíram deles pro álbum. A Julia ( Nara Vaezs) até foi no estúdio também, mas com ela foi diferente. Depois de todo o processo do álbum, eu ainda tinha uma letra muito boa que ainda não tinha usado. Ela já sempre me mostrava os beats que ela fazia, e numa dessa ela me enviou o beat de Na Cara. Me lembro (e ainda tenho esse arquivo) que eu gravei uns vocais pedindo pra ela deixar eu usar o beat dela no meu álbum. Eu cantava ” Me deixa, juliaaaaaaaaaa, por favor por favor por favooooor”. E uma hora ela deixou (risos)

Atualmente você vive na ponte Porto Alegre – São Paulo. O que acha das cenas musicais das duas cidades?

Eu estou morando em São Paulo, mas para mim nem fez tanta diferença, uma vez que a cena foi pausada por causa da pandemia. Inclusive, ultimamente tenho abandonado a ideia de existir uma cena específica em cada cidade. O Brasil é essa constante misturadassa, lambança de todos os gêneros, cores e sabores, e eu gosto disso. Acho que no sul, o bpm é mais alto (risos). A minha galera lá tem sede, quer quebrar as tradições, porque não tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, então acho que os grupos se unem e se fortalecem. Em São Paulo,  sinto que por ter bastante variedade de coisas acontecendo ao mesmo tempo, a cena acaba sendo por vezes um “cada um por si”, mas ao mesmo tempo a cena é levada com mais seriedade, no sentido da cena deixar e ser só uma paixão, e ser mesmo um trampo. Mas não nego também que tenho orgulhinho de ser a única do line que diz “(RS – RIO GRANDE DO SUL)” ao lado do nome. A preta do sul que vem com a cara de marrenta, mas te abraça com um sorrisão brasileiro…

Online e presencial. Você acha que o digital vai tomar conta 100 por cento das nossas vidas? Como os transhumanos vão aproveitar a pandemia para sentar na janelinha pós corona vírus?

Bah, tio! Te dizer que eu quase enchi o saco da internet. Mas muita coisa melhorou por isso. Sinto que aprendi a manipular melhor os algoritmos que me circundam. Sinto que todos nós estamos mais cuidadosos com nossa existência. Aceitando e empatizando com o limite artístico de cada um, diminuindo a cobrança pela constante presença virtual e visibilidade. Acho que aprendemos também quem estava no corre por paixão e quem estava pelo hype. Sinto que os espectadores e ouvintes estão mais seletivos agora. As pessoas estão indo atrás do que realmente elas apoiam, o que elas acreditam, e não necessariamente ir consumindo o que aparece pela frente. Muita coisa acho que vai ficar. Eu tive uma interação bem maior com o estudo, com ir atrás dos meus interesses e absorver mais conhecimento, porque as pessoas me parecem estar mais abertas para passar conhecimento, dialogar. Diálogo é o que fez a humanidade andar esse ano, né? Acho que é por aí que as coisas mudam, a proximidade eu acho que ela é mais intensa, agora que as pessoas estão conversando mais, do que antes quando se viam mas nem se cumprimentavam. A gente sempre se adapta e em cada update a gente aprende uma macete novo, né? Eu aprendi vários esse ano (risos) 

Em 2019 você foi apontada como cantora revelação por muitas revistas especializadas em música. Como é viver isso, mesmo tendo começado sua carreira em 2010? 

Eu não meço a minha evolução, aval ou potência pelo que diz a imprensa. Sempre me senti potente, por mais que ter fé sempre foi um bagulho ambivalente para mim, eu sempre procurei me basear pelo que eu acredito. Em 2010, eu já me sentia fazendo algo diferente do que eu ouvia, e que eu gostava, era o suficiente. O álbum foi bom porque me proporcionou chegar em espaços e me abriu oportunidades que só uma empresa grande me concederia. Mas sobre como ele foi recebido pelos ouvintes, hahaha, eu até me surpreendo, porque fiz ele pra ser indigerível, aspero, amargo. E mesmo assim engoliram. É que nem um rango que você faz para você mesma e você come e curte o gosto esquisito que ele tem e as pessoas comem, umas vomitam, outras ficam saboreando, é engraçado ver a reação das pessoas. Eu só quero que um dia o “PQ” seja prensado, se gostam ou não dele, não é meu problema, eu gosto, é meu primeiro filho, não tem muito o que o mundo diga que altere ou afete meu amor por ele.

“Para entrar na fila da vacina de gasolina”. O que é preciso incendiar no Brasil de hoje? 

Dizem que a vacina é uma dose de doença para seus anticorpos batalharem contra. 

Esse ano, eu tive um longo processo de soltura da mão quente e forte do ódio. Tentei amar mais do que odiar. Mas vejo o ódio do meu álbum ainda ser necessário. Eu ainda atearia fogo com a gasolina que corre no meu sangue em várias instituições e seus representantes. Ainda olho aquela arte que fizeram do carrefour explodindo e me sinto bem, ainda sinto que a arte salva o imaginário. Através dela sinto que as vítimas se tornam heróis, anti-heróis e vilões. A vacina também é o veneno.

Para terminar, o que você você está preparando para o festival Clubbers da Esquina?

Gravei esse primeiro show do ano na verdade. O ano inteiro fiquei transitando entre outras artes, para tentar curar essa abstinência de palco. O que rolou foi que tomei uma dose cavalar de palco, montação e performance para executar esse show para o festival. Curioso que antes de gravar eu fiquei sem voz, como eu não ficava há anos. Deu um desespero no começo, mas no momento exato em que eu fui para trás dos meus pedaizinhos, com meu escudeiro Tabu atrás, no skatinho do meu guerreiro Colaik, com a minha cavaleira do apocalipse SU me dando aquela segurança, a voz, só veio. Foi bem loko (a tri), a voz não tava ali e na hora que precisava vir ela veio. Foi bom, eu precisava disso. Espero que se sintam como eu me senti; liberta e energizada. E sim, tem as musiquinhas novas que o Brasa tanto quer…