Introdução à iluminação

Uma rápida viagem no tempo nos leva aos primórdios do teatro ocidental, quando a linguagem cênica já criava significados e auxiliava na configuração espacial dos espetáculos. A iluminação natural era o maior recurso de luz até então, que foi evoluindo para o uso de vitrais, velas, lampiões… A produção de peças e eventos no geral passou a ser um terreno fértil para o desenvolvimento de tecnologias mais avançadas que dão suporte tanto à produção, artistas e palco, quanto à forma como a plateia recebe e responde aos estímulos visuais.

 

Se há séculos já era assim, imagine só hoje. A iluminação cênica é elemento indissociável das produções, sejam elas pequenas ou megalomaníacas. Ela revela formas e movimentos, desenha o espaço, provoca sentimentos, traz profundidade, volume, ilusionismos, afinal, nossa capacidade de enxergar está diretamente ligada à iluminação.

 

Os 4 encontros da oficina de Introdução à Iluminação foram um mergulho que ampliou nossa compreensão do que é luz, bem como revelou inúmeras maneiras como podemos manipulá-la a partir de usos alternativos de fontes luminosas. Quem guiou as aulas, trouxe exercícios práticos e compartilhou conteúdos de grande relevância foram os incríveis Jésus Lataliza, Marina Arthuzzi e Rodrigo Marçal, integrantes do Coletivo Prisma.

O primeiro movimento

 

Tanto do ponto de vista técnico, quanto do ponto de vista artístico, uma coisa é certa: o primeiro movimento que devemos fazer para trabalhar com luz é aguçar o nosso olhar. Como? Percebendo a luz de outras formas e treinar essa educação visual em situações cotidianas: ao caminhar pela rua, fazer uma chamada de vídeo, perceber o movimento de outras pessoas e, é claro, realizando várias experimentações com fontes de luz, materiais para intervenção, cores e direções. Apurar este olhar e a noção de que movimentos mínimos são capazes de gerar grandes mudanças é tão importante quanto saber lidar com os equipamentos, e impacta diretamente o resultado.

 

A luz revela e, consequentemente, esconde. Choca, cega, lambe. Cria signos visuais, atmosferas dramáticas ou outras configurações significantes na cena. Seja luz frontal, contra-luz, ribalta, à pino, com ou sem fumaça, a iluminação cênica está sempre nos dizendo algo, ao mesmo tempo em que conversa com todos os outros elementos: cenografia, figurinos, sonoplastia, maquiagem, dramaturgia, encenação, produção, logística.

 

A potência reside justamente em criar inúmeras possibilidades fazer com que todas essas linguagens conversem sem ruídos entre si. Deste diálogo multidisciplinar, surgem novas e surpreendentes dimensões.

 

Eletricidade, luz, ação!

 

Cada espetáculo apresenta desenho e composição muito específicos. É necessária uma série de procedimentos, como montagem, proposição e afinação de luz, antes de chegar no conceito de composição visual que será usado. Atualmente (e felizmente) existem diversos softwares de simulação de efeitos e visualização prévia das composições imagéticas que a luz concretiza ao interagir dinamicamente com espaços, materiais e corpos. Estes dispositivos são facilitadores tecnológicos com várias propriedades de manipulação de, por exemplo, angulação, intensidade, brilhos e cores podem ser testadas para estudos estéticos que vão formar a iluminação cênica. Assim, nos apropriamos de recursos técnicos para a resolução de questões estéticas.

 

Entender essas propriedades passa por, como já foi dito, aguçar o olhar e também por conceitos de eletricidade. Muita física envolvida, mas não se preocupe porque o Rodrigo Marçal tem um material super didático pra gente compreender melhor as noções de diferença de potencial (tensão), corrente elétrica e potência. Se liga:

 

Essas 3 grandezas aplicadas ao Teatro nos ajudam a tomar algumas decisões técnicas e a executar o projeto com segurança da iluminação.

 

E para iluminação feita em casa, em pequenas escalas, a Marina traz ótimas dicas:

Bônus

 

Esse vídeo para quem é adepto do Do It Yourself e já quer logo colocar a mão na massa traz um apanhado muito massa sobre várias ferramentas úteis:

 

And: o espetáculo Tragédia, que foi transmitido ao vivo pelo YouTube do grupo Quatroloscinco, teve sua iluminação desenvolvida pelo Prisma e é um ótimo objeto de estudo, com intervenções para o online. Confira!

 

Bom proveito e lembre-se: o domínio da luz passa diretamente pela frequência de suas práticas.

Design Intuitivo e performance

Intuição
substantivo feminino
faculdade ou ato de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise.

 

Em quais momentos você faz uso da sua intuição? É possível executar um trabalho técnico sem perder a magia? Como viabilizar a produção de figurinos com poucos recursos? E como criar em momentos de ansiedade e tensão?

 

Esses foram alguns guias que inauguraram a oficina de Design Intuitivo e performance, maravilhosamente ministrada pela dupla dinâmica  Miss Immigration (identidade adotada pela bonita Euvira depois que partiu para Berlim) e  Léo Teófilo, designer de produto e artista da moda responsável por executar todos os looks bafônicos de Miss Immigration em festas consagradas como a ODD, MAMBA NEGRA e Carlos Capslock (SP).

 

Do lado de cá da telinha (e do Atlântico), participantes de vários pontos da terra brasilis que atuam em segmentos também diversos marcaram presença para aprender, trocar, criar e compartilhar ideias pessoais e coletivas. Pessoas de Beagá, São Paulo, do interior da Bahia e do Rio Grande do Sul. Vantagens do online.

 

 

O online permite esses encontros, mas também traz novas exigências de performances e ferramentas. Por isso, nem só designers e performers estiveram presentes na oficina. Participaram também, por exemplo, um professor de colégio e uma professora reikiana, afinal, construir um processo criativo é prática que pode (e deve!) ser aplicada a qualquer profissão, especialmente em um momento de ruptura que naturalmente nos impõe várias transformações.

A nós nos resta… transformar

 

Performar diz muito dessa oportunidade que temos de transformação, de ser surpreendente e extraordinárie; de renascer, se reconstruir, reinventar a nós mesmos e os espaços que ocupamos. É sobre se expressar, marcar presença, se comunicar, existir.

 

Imaginar possíveis transformações (para si e para nosso pedaço de mundo) foi um exercício constante para a turma, afinal, é a partir desse exercício que conseguimos gerar impacto. Por meio de nossos corpos, que estão sempre performando, somos capazes de provocar, estimular, chocar e dizer muita coisa em linguagens não-verbais. O design é uma continuidade desse corpo que fala, e agrega muito mais sentido à performance.

 

Desenvolver figurinos é criar relações estéticas e semióticas em diferentes níveis, que vão desde o nosso mundinho interior até o que nos é externo. Ao performar, manifestamos valores, paixões, raízes, sonhos e medos; externalizamos o que é visceral; conferimos política ao que temos de mais potente: nosso corpo. No que toca especialmente ao universo das festas e da noite, performances e figurinos são uma extensão desses momentos — os corpos são a base para uma grande obra artística e, sem dúvidas, partes essenciais da festa. O papel da performer é potencializar nossos sentidos, fazendo com que a gente consiga enxergar a música, para além de ouvir e dançá-la. Aleluia arrepiei!

 

Por isso e por muito mais, um figurino nunca é só um figurino. Ou pelo menos não deveria ser. Ceci n’est pas une montação, apenas, e quanto mais conceito for agregado ao longo do processo de criação, mais impactante será o resultado. Para definir o conceito, é importante partir da identidade visual da festa e somar a ela suas próprias viagens, referências e (ins)pirações.

 

Miss Immigration levou para Berlim muito mais que sua bagagem física, mas todo um universo de vivências latinas. Cores, acessórios e sua própria ancestralidade ajudam a compor sua identidade. A mudança de nome também foi peça-chave nesse processo de reinvenção: mudar de nome muda sua identidade e naturalmente você vai se (re)descobrindo, se propondo a novas coisas. Suas maiores referências estéticas são latinas e afrofuturistas, trazendo em seu trabalho um poderoso resgate cultural, artístico e filosófico de sua história.

 

Foto: Instagram Miss Immigration

 

Quem eu sou?
Como me vejo?
Como faço?
Tou pronta!
Tou bonita?

 

Depois dessa checklist coletiva babadeira, muitos exemplos visuais, exercícios práticos, dicas de garimpo e aprimoramento, a turma sai do último encontro com a cabeça borbulhando de novas ideias e certamente com mais maturidade criativa. Entre peças coringas, achados únicos inusitados, uma intuição apurada que sente e sabe onde procurar, muita coisa brilhante vem ao mundo. Ainda bem!

Produção Musical com Autonomia

Computador com internet, fones de ouvido, criatividade e dedicação de duas horas por dia. Pronto, está dado o primeiro passo rumo à produção musical. Passados pouco mais de 130 anos desde o surgimento do primeiro sintetizador, que ocupava muito espaço, era pouco acessível e exigia dias de trabalho para produzir sons, hoje vivemos um momento especial, com possibilidades simplificadas e multiplicadas pela Era Digital. 

 

Programas e plugins decodificam com precisão a linguagem sonora dos equipamentos analógicos. Aliados à nossa imaginação, permitem criar desde beats básicos até arranjos mais complexos e diferentes de tudo que costumamos ouvir nas pistas, lives e DJs sets por aí.

 

A oficina Produção Musical com Autonomia, ministrada pela super produtora e DJ paulistana Mari Herzer (MAMBA NEGRA), traz um apanhado completíssimo que introduz quem participa à interface e funcionalidades do Ableton Live. Além disso, Mari propõe que cada alune se aventure na criação de um beat básico, aprimorando-o posteriormente, bem como ensina técnicas incríveis que viabilizam formatações menos tradicionais da música eletrônica e permitem o desenvolvimento de sons criativos a partir de ferramentas simples do Live, também para outras finalidades.

 

Nos links a seguir, você tem acesso ao material de apoio compartilhado pela Mari nos 3 encontros.

 

 

 

 

Foco, que aqui vamos nós! 

VJ: como ficam os visuais na pandemia?

A luz piscando na mesma frequência da música parece sincronizar também cada corpo pulsante na pista. Há exatos 9 meses que não sentimos o grave vibrar nossos corações dessa maneira. Há 9 meses que ressignificamos, dentre tantas outras coisas, nossos encontros e a provocação múltipla de nossos sentidos. Dez anos em um. É assim que Brayhan Hawryliszyn, Yonanda Santos e Breno Oliveira que juntos formam a MIR Estúdio — sentem-se em relação às novidades e transformações das práticas e criações visuais durante a pandemia. 

 

Especialistas em encontrar soluções de tecnologia criativa para os mais variados tipos de eventos, o trio compartilhou, em 3 dias de oficina, uma fonte riquíssima de referências, experiências, softwares e perspectivas para o trabalho de visuais a partir do cenário pandêmico. Abra o bloco de notas e prepare sua memória RAM e placa de vídeo, vem coisa grande por aí!


De volta para… o futuro

 

A oficina VJ: como ficam os visuais na pandemia? trouxe um spoiler do que nos aguarda daqui pra frente. Situações que há um ano eram improváveis, hoje se mostram não só possíveis, mas também necessárias, como foi o caso da primeira apresentação da Mientras Dura na pandemia: a dupla de DJs tocando ao vivo, de Belo Horizonte, em uma festa via Zoom, e o VJ criando as intervenções visuais também ao vivo, porém diretamente de sua casa em São Paulo. Parece mágica, parece futuro, mas é, sobretudo, o real-virtual presente que estamos vivendo. 

 

 

Aliás, por falar em presente e futuro, vamos dar um pequeno pulo no passado: a galera do video-game trilha esse caminho há 20 anos, criando uma realidade virtual que case perfeitamente o tripé que sustenta também nossos eventos: online, em tempo real e com qualidade de cinema. É como se agora a gamificação invadisse vários outros segmentos: shows, festas, eventos corporativos, desfiles de moda… Como bem colocou Mark Melling, diretor de Marketing do RYOT Studio, hub de tecnologias imersivas da Verizon Media, “a Covid não aumentou a demanda por experiências de VR [realidade virtual], ela acelerou a demanda. É natural que, à medida que a tecnologia melhore, as pessoas desejem experimentar o digital da mesma maneira que experimentam o mundo real. Era nessa direção que o mercado já estava se movendo. 

 

Uma aceleração forçada? Sim, afinal, estamos falando de uma década em um ano, mas também inevitável. Desde o início da pandemia, estamos vivenciando uma intensa virtualização de nossas atividades, sejam elas de trabalho ou lazer. Manifestações artísticas e culturais também estão nesse processo, cultivando um cenário virtual que pode ser acessado por, literalmente, todo mundo. Muito mais do que acessar, queremos participar ativamente e interagir com os outros elementos desse meio interligado por um fio invisível. Não é sobre consumir produtos, apenas; mas sobre viver novas experiências e se sentir parte daquilo. Essa é uma das poucas coisas que não mudou, a valorização da experiência.

 

E ao pensarmos no que temos vivido, o objetivo não é recriar as situações do mundo real no ambiente virtual, mas encontrar novas possibilidades e propor algo diferente. Formatos híbridos estão mostrando sua potência e, de acordo com Brayhan, que atua como VJ desde 2002, serão muito úteis inclusive no pós-vacina (sim, irmãs, esse momento há de chegar!). Vai se preparando porque ver aquela DJ bafo de outro continente projetada em um palco de uma de nossas festas será uma realidade bastante possível. 

 

A produção virtual é uma grande aposta para o futuro, seja em relação a festas, cinema, ou publicidade. Aqui e agora ela já se mostra como grande uma ferramenta poderosíssima que viabiliza novos formatos de interação. Oras, se derrubamos barreiras físicas e não necessariamente precisamos compartilhar o mesmo espaço para criar intervenções visuais ao vivo, isso significa que podemos inventar muita moda de onde quer que a gente esteja! 


De onde vem a inspiração?

 

Inventar moda não é fácil. Ser VJ é estar constantemente em busca de referências, mesmo que inconscientemente. Um filme, um clipe no youtube… a qualquer momento pode estalar uma ideia que faz todo sentido para o seu projeto. Por isso, a primeira dica é lançar um olhar sempre atento a tudo e absorver as referências. Isso, é claro, depois de desenhar seu projeto e definir os principais conceitos. A etapa de conceituação e briefing é crucial porque é a partir dela que tudo se desenvolve, mas sentir a energia do momento e das pessoas também é muito importante. Nada é engessado, muito pelo contrário… 

 

Depois, se ligar nas tendências e sites/perfis que compartilham imagens e projetos. Existe um universo vasto que possibilita descobertas diárias. Saiba onde procurar, participe de grupos, conheça outros artistas, troque conhecimento. 

 

Algumas referências para curadoria de conteúdo compartilhadas pelo pessoal do MIR para você mergulhar de cabeça e conhecer o trabalho de VJs do mundo todo:

 

Imagem: Beeple

 

Já em relação aos softwares, quem participou da oficina teve uma verdadeira aula, decifrando interfaces, códigos, técnicas e macetes. Os softwares usados/citados foram

 

Resolume Anima – Pago, mas a versão gratuita traz todas as funcionalidades (a diferença é que o projeto fica com marca d’água, mas é totalmente suficiente para quem quer se familiarizar e praticar o VJing. O Resolume controla e mapeia vídeo, luz, sons externos, e permite criar vários set-ups em um mesmo projeto. 

 

Unreal Engine – Um kit de desenvolvimento criado pela Epic Games e que vem sendo aprimorado há quase vinte anos. Engines são conjuntos de programas e bibliotecas que funcionam como utensílios genéricos para itens como criação de personagens, cenários, e a programação da inteligência artificial em projetos. Esse é um software mais complexo: um pouco de VJ, um pouco de programação… 

 

OBS – Principal software gratuito de streaming e gravação, que permite várias integrações. 

 

Shotgun – Plataforma 100% voltada para eventos e festas online, tem inúmeras funcionalidades, exige uma ótima conexão que não deve ter a rede Wi-Fi como fonte.

 

Lumikit – Controle de iluminação. Incluir a iluminação, para além do som e vídeo, deixa o combo VJ ainda mais completo. 

 

Grandes eventos que se reinventaram e vale a pena conferir:

 

CCXP 2020: a Comic Con um superevento para fãs de HQ, filmes, livros e cultura cosplay. Neste ano, toda a programação foi digital, mais de 150 horas de conteúdos inéditos, 250 lives simultâneas e milhões de visitantes.  

 

Festival Amazônia Mapping: um dos mais importantes eventos de mapeamento do Brasil, que levou arte e tecnologia para o coração da Amazônia (em realidade aumentada, é claro). Assim como o Clubbers da Esquina, o festival foi redesenhado para acontecer online e com programação totalmente gratuita, nos transportando para uma ilha amazônica virtual!

 

Show game do Travis Scott no Fortnite: sim, os gamers do famoso jogo Fortnite vivenciaram ~~ de pertinho ~~ um show exclusivo do rapper Travis Scott. O evento bateu recorde de arrecadação da franquia Epic Games, e o artista faturou 20 milhões de dólares com o projeto. Pabllo Vittar e Charlie XCX também já se apresentaram dessa forma no jogo Minecraft. 

 

 

Seja na noite ou em eventos corporativos, hoje não é possível falar dos processos de criação visual sem pensar em intervenções online. Estamos nos transformando. Todo o fluxo de produção e pesquisa de conteúdo, bem como as mixagens visuais, são um universo em constante expansão. Para além de camadas, formas e modulações, “VJzar” é arte sinestésica, e os sentidos somos nós quem imaginamos, criamos, reinventamos e… sentimos.   

 

A sementinha foi plantada. Além de todo o aprendizado técnico e da imensa troca que rolou entre a turma e os integrantes da MIR (que estão mega satisfeitos com o resultado de sua primeira oficina), já existem planos para o pós-pandemia. Agora, em um grupo do Telegram, o papo continua — e já existem convites para os alunos participarem do projeto de visuais da próxima Mientras Dura presencial, bem como planos para mais oficinas ministradas pela MIR. É sobre isso!