dezembro 3, 2020

Entrevista com Kid from Amazon

Club Kid que nada. Aqui é Kid from Amazon, o produtor que vem de Belém do Pará para o nosso festival Clubbers da Esquina. Já conhecíamos o trabalho desse artista há tempos e aproveitamos a presença dele no lineup para falar sobre música, sons de Belém, coletividade e, claro, o que move a cabeça dos artistas na produção musical. Senta e confere o papo!

Kid from amazon, como começou seu interesse por música? Foi na infância? Conta pra gente um pouquinho. 

Quando eu era muito pequeno comecei a fazer aulas de canto e eu sentia um instinto muito grande de ter muitas músicas escritas. Lembro que com uns 9 anos eu já tinha um caderno com várias letras. Eram letras completamente aleatórias que eu escrevia e cantarolava um ritmo, as letras não variavam muito. Iam de amor à venda de órgãos (essa aqui eu lembro de escrever e cantar ahahahha). Quando eu comecei a ter aulas de flauta, comecei a fazer coisas mais melódicas enquanto os números de canções aumentavam, e instrumentos como panela e colheres de pau e beatbox agressivos começavam a integrar a banda de uma criança só. Quando tive o primeiro computador, em 2006, para mim ainda era impossível produzir canções, eu achava que eram coisas de estudios enormes, e continuava fazendo daquela mesma maneira, que a Sophie copiou década depois (kkkk?). E então teve uma época em que eu já tinha experiência em crackear programas, consegui instalar o fl studio, mas não tinha instrução nenhuma e eu produzia tudo muito aleatoriamente. Teve uma transição enorme entre esse período e o momento que fiz meu primeiro projeto Alpha Magic em 2012 e então o Kid From Amazon em 2014. Com inúmeros tutoriais de youtube e técnicas envolvidos.

Cena eletrônica em Belém do Pará. Como você vê a cena daí hoje?

É uma pergunta muito recorrente, e nem sempre tento tratar disso com eufemismos. 99% dos roles eletrônicos são extremamente limitados. São arquitetados para reproduzir outros mesmos rolês. A investigação do novo, independente de ser do novo que está rolando em algum lugar do mundo, pesquisas sonoras multiculturais, ou do novo que seja pulsações sonoras únicas e instintivas, apesar de já haver rolês que misturam inúmeros gêneros, tudo é muito arquitetado, as referências são muito parecidas e é muito raro, eu pelo menos, me sentir saciado com a “variedade” de rolês eletrônicos que existem aqui. Aqui o poder da imagem patriarcal valida muitas pessoas e também invalida muitas outras. A infraestrutura é sempre restringida à esses indivíduos, como em todos os lugares, mas aqui isso influencia extremamente em uma cena fragilizada que tenta muito timidamente acontecer. Temos inúmeros artistas, músicos, djs, produtores mega talentosos que tentam mudar as coisas há tempos, muitos desistem de tentar, simplesmente não há espaço ou interesse do público.As coisas bem recentemente tem mudado e estamos caminhando para um dinamismo, que apesar de tardio, parece bem promissor.  Mesmo assim, por muito tempo, minhas propostas, depois de uma década tocando nas nights, muito raramente são bem aceitas e há um desrespeito muito grande envolvido em inúmeros aspectos.

Quais suas maiores referências musicais hoje?

Acho que tudo aquilo que me influencia tá correndo na veia em tudo o que faço, ontem, hoje e amanhã. E é curioso a salada musical que percorre aqui hahah!! Eu sempre fui pesquisador de fóruns musicais e sites musicais no geral, e dedico uma boa parte do meu tempo para fazer novas pesquisas sonoras. Quando eu gosto de algum artista, eu fico o resto da vida escutando, às vezes até ouvindo a mesma música! Tenho referências enormes aqui da minha cidade, como O Pnk Sabbth, o Sidou, a Genoma, e muita mais gente. Tem vários djs e produtores aqui que me ensinam muita coisa e são uma grande referência para mim, como o Bauê e o Chico sem nome de Castanhal, que produzem do noise ao ambient em uma perspectiva muito particular. Entre outras produções mundiais que me identifico demais, no momento estou obcecado com o trabalho do Palmbomen II titulado I’m Cindy, é algo que se conecta muito comigo. Tem referências que me acompanham muito desde o início da minha carreira como o trabalho da Sapphire Slows, o primeiro álbum do The Knife. Outros artistas que sinto demais que percorrem aqui é o Delroy Edwards, Unknown Mobile e a NKISI. Me sinto muito conectado com a sonoridade de vários artistas de shoegaze eletrônico também como Tropic of Cancer, Jesse Ruins e White Poppy e vários outros também. Tenho uma lista que ouço há uns bons anos com artistas de shoegaze que não troco por nada. Ruídos e texturas são grandes inspirações.  Apesar de ter resumido bastante minhas refs, não posso deixar de citar Roza Terenzi também que praticamente me introduziu ao house e techno com bpms mais elevados. É uma grande referência hoje pra mim para o novo rumo musical que tenho tomado.

Religião ou delírio? Seus sets são muito percursivos e espirituais. Como você se organiza para construir um live set?

O Workflow muda sempre, mas sempre gosto de trabalhar com a tateabilidade, de fechar os olhos e imaginar novos sentidos do corpo humano entrando em contato com a música, que nada mais é que estações e fenômenos ainda não identificados completamente arquitetados para estarem ali, em formato wav e variações, encapsulado e servindo ao tempo. Gosto muito de trabalhar com as ferramentas para produzir ambientes entre o orgânico e o sintético, entre a rocha e a água,  do alto dos céus aos pontos mais extremos não identificados da terra, do oceano, e a interseções físicas e espirituais, visíveis e invisíveis entre esses lugares. 

Poderia nos explicar o que você chama de “ambient brega”? Vi esse gênero num post no seu insta e amei a categoria musical. 

Isso deve ser coisa do Sidou hahaha, ele tem trabalhado com maneiras bem inusitadas do technobrega, por isso devo ter repostado ou algo assim. O Chico Sem Nome de castanhal também tem feito algumas subversões desse gênero daqui, com muito noise. Eu acho que o brega afeta tanto a gente aqui que é impossível de negar a influência que faz no nosso trabalho e no nosso modo de viver. Ataques de sintetizadores melódicos, vozes agudas, graves imprevisíveis que se repetem são elementos importantes em muitas composições minhas e que também são marcas registradas do brega.

O vortexp2p é um coletivo que você faz parte aí em Belém do Pará. O que une vocês? Que tipo de atividades vocês fazem aí na city?

Sim, formamos a Vórtex ano passado, em março aproximadamente, e tem sido uma experiência maravilhosa de aproximar pessoas com visões próximas sobre as cenas daqui. O maior gás para fazer a Vórtex veio depois de um lançamento que fiz em 2018, em que chamei uma galera para tocar e então assimilei que era a primeira vez que esses artistas estavam se apresentando, e isso refletia imensamente a falta de compromisso das cenas culturais daqui com esses artistas inovadores. Muitos aqui produzem de forma muito escondida, alguns até com  menos de 10 seguidores no soundcloud e toda essa falta de reconhecimento e de vivência coletiva é extremamente trágica. Acho que transpassar aquilo que esperam de ser produzido daqui do Norte, e ressignificar a nossa cultura para fora de valores e estéticas cristalizadas é algo que nos une muito. Fizemos 3 eventos em 2019, também estamos postando o trabalho da galera pelo soundcloud e divulgando também pelas mídias, também contamos com algumas produções oficiais no youtube. Basicamente esse é o nosso modus operantis, recrutar a galera e viver isso coletivamente. Em um ano já foram uns 7 artistas tocando pela 1 vez, e várias outras figuras clássicas da cena que também tentam há um bom tempo mudar essa monotonia.

Como acredita que a cena eletrônica de Belém será pós pandemia?

As perspectivas são boas especialmente, pois o isolamento nos fez repensar muitas coisas, em alguns lugares já reabertos e até mesmo antes da pandemia já se percebe um gigante tentando sair de uma caixinha, acho que a mesmice uma hora satura e algo diz que a galera tem percebido isso. Não digo de uma perspectiva onde os valores que tenho são maiores do que o de valores de alguém que se beneficia e se satisfaz com a cena atual daqui, mas que há a necessidade da integração e reconhecimento e validação de novos valores. Quando todos se libertarem musicalmente, perceberão a potência que são, em especial por pertencerem a esse ecossistema, a essas filosofias e infinitos signos culturais em que a música está sempre presente. No fim de tudo, o bem prevalecerá.

Para terminar, gostaria de saber um pouquinho sobre o que podemos esperar para o Festival Clubbers da Esquina. 

Vou montar um live set inédito, realizado integralmente para o festival, e que traduz muito do que passei nesses últimos 7 meses em casa. Feito com muito amor pela música, que é o que me dedico e continuarei me dedicando. Faça chuva ou faça sol. É isso! ♥ kisses from kid from amazon