dezembro 3, 2020

Entrevista com Saskia

Direto das terras geladas do sul do Brasil vem Saskia. Esta DJ, produtora e artista nos presenteou no ano passado, com um disco incrível. Saskia trocou uma ideia com a gente sobre a correria DJ, live set, playstation e futebol em campo de várzea. Afinal, tocar é uma atividade física que poderia muito bem estar nos jogos olímpicos. Saskia tem uma relação forte com BH  e ilustra bem a ponte de amor e amizade entre BH e Porto Alegre. Aproveitem a entrevista! Esse papo foi uma delícia!

Oie, Saskia! Ainda tá na nossa memória o set incrível que você fez com o PV 5000 aqui em Beloris. Estamos lokitas para esse retorno, ainda que online. O que lembra daquele dia?

Nossa mano, um dos momentos mais cruciais da minha vida! Me lembro de não conhecer PV, me lembro de só ouvir rumores e achar que fosse uma pessoa fechada e esquiva, daí fomos pra BH juntxs e na ida fomos nos conhecendo. CLARO Q DEU MATCH, NEH? Trocamos altas ideias e comecei a me sentir muito confortável ao redor dessa criatura. Chegando em BH, nós íamos ficar em casas separadas, mas eu estava tão apegada ao PV que quis ficar junto com ele. Me lembro de dizer “Quero ficar na casa do amigo do PV, o tal Pedro Pedro ” (risos). Nem sabia que Pedro ia conhecer PV pela primeira vez, assim como eu. Acabei ficando na casa dele com PV e ainda colou o Martinelli (DJ MTN 9090) que também começou comigo uma amizade que mantemos até hoje. Claro que os dois DJs ali estavam se coçando para pedir a famosa e famigerada CDJ da Masterplano, que estava encaixotada em algum lugar da cidade. Eu nem sabia o que era uma CDJ até então. Montaram os equipamentos na sala onde estávamos dormindo (dormidão gostoso foi aquele, credo), e eu comecei a me interessar por aquela nave ali cheia de botões piscantes. PV e Martinelli me deram as dicas, vou contar como eu ouvi na minha cabeça : ” Olha, quadrado é para pular, triângulo para atirar e aqui tu corre para frente” (risos), e com esse mini tutorial, eu peguei as músicas que eu tinha no celular (pq eu ja era uma DJ em potencial) e fiquei treinando ali na cdj enquanto eles ficavam tomando cerva na cozinha. E eu virei track, virei track, virei track até viciar, até me emocionar. Pensa numa criança que está sozinha com o playstation4  do irmão, pensa na emoção e do sangue nozói, era eu ali. Eu me animei tanto que, naquela mesma semana,chegou uma tatuadora que morava na casa e eu disse “TATUA UM MIXER EM MIM”. E saí por aí cantando em ritmo de funk: “Agora eu sou Dj, pode contar comigo o bpm que eu sei”. 

Eu me deslumbrei tanto com BH, com os belorizonters, com a CDj e a DJ life que eu perdi o avião de volta pra Porto Alegre. O mais incrível é que todo mundo me apoiou para bolar um show, onde na porta eu levantei a grana para comprar a passagem de volta. Na hora desse show, a fonte do meu PC simplesmente se desmembrou, e cantei minhas letras em cima do DJ set de PV. Foi muito lindo, eu consegui a grana pra voltar, voltei com coração apertado e preenchido. FOI TUDO!

DJ Set x LiveSet? Qual a onda que você sente em cada um?

Então, já puxando que foi BH que me fez DJ, eu sempre tive mais contato com live, mas me divirto muito mais sendo DJ. Eu desenvolvi essa metáfora sobre a diferença entre os dois: Imagina que live é jogar futebol, e DJset é jogar FIFA no playstation. Os dois são divertidos, mas tantos prós quanto contras. Às vezes uma pelada cansa, as vezes a gente está descalço e o chão é de terra e fazemos gols muito belos. O live exige bastante do corpo, é o corpo que traduz a mente e preenche o espaço do palco, é o corpo que conversa com o público.No playstation, vc aprende jogando, morrendo e começando o checkpoint todo de novo até passar de fase e ficar mais forte. Às vezes a sala está cheia dos amigos do seu irmão mais velho e eles jogam muito mais que você, mas mesmo passando vergonha você quer tentar jogar mais, quer aprender, quer treinar, e uma hora o seu próprio irmão (que no meu caso eh PV) vira para você e diz “Cê ta jogando bem, hein?” e assim você ganha o jogo.

Na CDJ,  toda vez que você joga, você está aprendendo, e você está sempre querendo passar de fase, virar mais uma track, apertar mais rápido os botões. Cada vez que você vira uma track, você quer virar outra, e você quer testar suas tracks, quer testar o que você baixou. Eu acho divertidíssimo e eu me orgulho de poder dizer que eu sou DJ, com o privilégio de ter aprendido direto na CDJ. Mas também quem não gosta de suar no live, né? Fazer aquele gol de bicicleta e pá… (risos)

Seu disco “PQ” é um trabalho muito foda com a participação de vários artistas igualmente fodas. Como foi o processo de escolha dessas parcerias?

No meu álbum, eu pude fazer tudo que eu já sonhava. No caso, eu já sonhava em ter uma música com Edgar, inclusive no final da minha residência na Redbull, ele disse ” Tô só esperando tu me mandar esse beat, hein?” e eu aceitei o desafio. Tantão era uma voz e uma poética que eu já prestava atenção, mas ainda não tinha conhecido. Muito louco conhecer o Tantão. Ele é que nem o Taz, um caos por fora, mas um fofo por dentro. Me lembro que quando me apresentaram a ele, ele me odiou, ficou se fazendo, porque obviamente eu ficava olhando para ele com cara de retardada (risos). Mas logo ele foi se abrindo para mim e no estúdio nos encontramos, ele pediu para eu dirigir ele, eu escrevi algumas frases e ele mudou outras.

Os sopros eu também sempre quis, eu enchi o saco da Ava Rocha e do Negro Léo, que nem uma criança na loja de doces puxando a barra da calça dos pais dizendo: ” EU QUERO SOPRO, EU QUERO SOPRO, POR FAVOR, EU FUI BOAZINHA O ANO TODO”. Foi difícil chegarmos a uma conclusão de como faríamos, mas conseguimos chamar Marcos Campello e Andre Ramos para fazer birutagem em estúdio.

No mais, das parcerias, muitos são meus amigos, que já me acompanhavam desde que eu comecei, e já eram uma influência recíproca. Marcelulose e Leo Pianki foram no estúdio comigo em Porto Alegre, participando do primeiro processo, primeira imersão. Foi induvidável que eu usaria as pérolas que saíram deles pro álbum. A Julia ( Nara Vaezs) até foi no estúdio também, mas com ela foi diferente. Depois de todo o processo do álbum, eu ainda tinha uma letra muito boa que ainda não tinha usado. Ela já sempre me mostrava os beats que ela fazia, e numa dessa ela me enviou o beat de Na Cara. Me lembro (e ainda tenho esse arquivo) que eu gravei uns vocais pedindo pra ela deixar eu usar o beat dela no meu álbum. Eu cantava ” Me deixa, juliaaaaaaaaaa, por favor por favor por favooooor”. E uma hora ela deixou (risos)

Atualmente você vive na ponte Porto Alegre – São Paulo. O que acha das cenas musicais das duas cidades?

Eu estou morando em São Paulo, mas para mim nem fez tanta diferença, uma vez que a cena foi pausada por causa da pandemia. Inclusive, ultimamente tenho abandonado a ideia de existir uma cena específica em cada cidade. O Brasil é essa constante misturadassa, lambança de todos os gêneros, cores e sabores, e eu gosto disso. Acho que no sul, o bpm é mais alto (risos). A minha galera lá tem sede, quer quebrar as tradições, porque não tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, então acho que os grupos se unem e se fortalecem. Em São Paulo,  sinto que por ter bastante variedade de coisas acontecendo ao mesmo tempo, a cena acaba sendo por vezes um “cada um por si”, mas ao mesmo tempo a cena é levada com mais seriedade, no sentido da cena deixar e ser só uma paixão, e ser mesmo um trampo. Mas não nego também que tenho orgulhinho de ser a única do line que diz “(RS – RIO GRANDE DO SUL)” ao lado do nome. A preta do sul que vem com a cara de marrenta, mas te abraça com um sorrisão brasileiro…

Online e presencial. Você acha que o digital vai tomar conta 100 por cento das nossas vidas? Como os transhumanos vão aproveitar a pandemia para sentar na janelinha pós corona vírus?

Bah, tio! Te dizer que eu quase enchi o saco da internet. Mas muita coisa melhorou por isso. Sinto que aprendi a manipular melhor os algoritmos que me circundam. Sinto que todos nós estamos mais cuidadosos com nossa existência. Aceitando e empatizando com o limite artístico de cada um, diminuindo a cobrança pela constante presença virtual e visibilidade. Acho que aprendemos também quem estava no corre por paixão e quem estava pelo hype. Sinto que os espectadores e ouvintes estão mais seletivos agora. As pessoas estão indo atrás do que realmente elas apoiam, o que elas acreditam, e não necessariamente ir consumindo o que aparece pela frente. Muita coisa acho que vai ficar. Eu tive uma interação bem maior com o estudo, com ir atrás dos meus interesses e absorver mais conhecimento, porque as pessoas me parecem estar mais abertas para passar conhecimento, dialogar. Diálogo é o que fez a humanidade andar esse ano, né? Acho que é por aí que as coisas mudam, a proximidade eu acho que ela é mais intensa, agora que as pessoas estão conversando mais, do que antes quando se viam mas nem se cumprimentavam. A gente sempre se adapta e em cada update a gente aprende uma macete novo, né? Eu aprendi vários esse ano (risos) 

Em 2019 você foi apontada como cantora revelação por muitas revistas especializadas em música. Como é viver isso, mesmo tendo começado sua carreira em 2010? 

Eu não meço a minha evolução, aval ou potência pelo que diz a imprensa. Sempre me senti potente, por mais que ter fé sempre foi um bagulho ambivalente para mim, eu sempre procurei me basear pelo que eu acredito. Em 2010, eu já me sentia fazendo algo diferente do que eu ouvia, e que eu gostava, era o suficiente. O álbum foi bom porque me proporcionou chegar em espaços e me abriu oportunidades que só uma empresa grande me concederia. Mas sobre como ele foi recebido pelos ouvintes, hahaha, eu até me surpreendo, porque fiz ele pra ser indigerível, aspero, amargo. E mesmo assim engoliram. É que nem um rango que você faz para você mesma e você come e curte o gosto esquisito que ele tem e as pessoas comem, umas vomitam, outras ficam saboreando, é engraçado ver a reação das pessoas. Eu só quero que um dia o “PQ” seja prensado, se gostam ou não dele, não é meu problema, eu gosto, é meu primeiro filho, não tem muito o que o mundo diga que altere ou afete meu amor por ele.

“Para entrar na fila da vacina de gasolina”. O que é preciso incendiar no Brasil de hoje? 

Dizem que a vacina é uma dose de doença para seus anticorpos batalharem contra. 

Esse ano, eu tive um longo processo de soltura da mão quente e forte do ódio. Tentei amar mais do que odiar. Mas vejo o ódio do meu álbum ainda ser necessário. Eu ainda atearia fogo com a gasolina que corre no meu sangue em várias instituições e seus representantes. Ainda olho aquela arte que fizeram do carrefour explodindo e me sinto bem, ainda sinto que a arte salva o imaginário. Através dela sinto que as vítimas se tornam heróis, anti-heróis e vilões. A vacina também é o veneno.

Para terminar, o que você você está preparando para o festival Clubbers da Esquina?

Gravei esse primeiro show do ano na verdade. O ano inteiro fiquei transitando entre outras artes, para tentar curar essa abstinência de palco. O que rolou foi que tomei uma dose cavalar de palco, montação e performance para executar esse show para o festival. Curioso que antes de gravar eu fiquei sem voz, como eu não ficava há anos. Deu um desespero no começo, mas no momento exato em que eu fui para trás dos meus pedaizinhos, com meu escudeiro Tabu atrás, no skatinho do meu guerreiro Colaik, com a minha cavaleira do apocalipse SU me dando aquela segurança, a voz, só veio. Foi bem loko (a tri), a voz não tava ali e na hora que precisava vir ela veio. Foi bom, eu precisava disso. Espero que se sintam como eu me senti; liberta e energizada. E sim, tem as musiquinhas novas que o Brasa tanto quer…