dezembro 16, 2020

VJ: como ficam os visuais na pandemia?

A luz piscando na mesma frequência da música parece sincronizar também cada corpo pulsante na pista. Há exatos 9 meses que não sentimos o grave vibrar nossos corações dessa maneira. Há 9 meses que ressignificamos, dentre tantas outras coisas, nossos encontros e a provocação múltipla de nossos sentidos. Dez anos em um. É assim que Brayhan Hawryliszyn, Yonanda Santos e Breno Oliveira que juntos formam a MIR Estúdio — sentem-se em relação às novidades e transformações das práticas e criações visuais durante a pandemia. 

 

Especialistas em encontrar soluções de tecnologia criativa para os mais variados tipos de eventos, o trio compartilhou, em 3 dias de oficina, uma fonte riquíssima de referências, experiências, softwares e perspectivas para o trabalho de visuais a partir do cenário pandêmico. Abra o bloco de notas e prepare sua memória RAM e placa de vídeo, vem coisa grande por aí!


De volta para… o futuro

 

A oficina VJ: como ficam os visuais na pandemia? trouxe um spoiler do que nos aguarda daqui pra frente. Situações que há um ano eram improváveis, hoje se mostram não só possíveis, mas também necessárias, como foi o caso da primeira apresentação da Mientras Dura na pandemia: a dupla de DJs tocando ao vivo, de Belo Horizonte, em uma festa via Zoom, e o VJ criando as intervenções visuais também ao vivo, porém diretamente de sua casa em São Paulo. Parece mágica, parece futuro, mas é, sobretudo, o real-virtual presente que estamos vivendo. 

 

 

Aliás, por falar em presente e futuro, vamos dar um pequeno pulo no passado: a galera do video-game trilha esse caminho há 20 anos, criando uma realidade virtual que case perfeitamente o tripé que sustenta também nossos eventos: online, em tempo real e com qualidade de cinema. É como se agora a gamificação invadisse vários outros segmentos: shows, festas, eventos corporativos, desfiles de moda… Como bem colocou Mark Melling, diretor de Marketing do RYOT Studio, hub de tecnologias imersivas da Verizon Media, “a Covid não aumentou a demanda por experiências de VR [realidade virtual], ela acelerou a demanda. É natural que, à medida que a tecnologia melhore, as pessoas desejem experimentar o digital da mesma maneira que experimentam o mundo real. Era nessa direção que o mercado já estava se movendo. 

 

Uma aceleração forçada? Sim, afinal, estamos falando de uma década em um ano, mas também inevitável. Desde o início da pandemia, estamos vivenciando uma intensa virtualização de nossas atividades, sejam elas de trabalho ou lazer. Manifestações artísticas e culturais também estão nesse processo, cultivando um cenário virtual que pode ser acessado por, literalmente, todo mundo. Muito mais do que acessar, queremos participar ativamente e interagir com os outros elementos desse meio interligado por um fio invisível. Não é sobre consumir produtos, apenas; mas sobre viver novas experiências e se sentir parte daquilo. Essa é uma das poucas coisas que não mudou, a valorização da experiência.

 

E ao pensarmos no que temos vivido, o objetivo não é recriar as situações do mundo real no ambiente virtual, mas encontrar novas possibilidades e propor algo diferente. Formatos híbridos estão mostrando sua potência e, de acordo com Brayhan, que atua como VJ desde 2002, serão muito úteis inclusive no pós-vacina (sim, irmãs, esse momento há de chegar!). Vai se preparando porque ver aquela DJ bafo de outro continente projetada em um palco de uma de nossas festas será uma realidade bastante possível. 

 

A produção virtual é uma grande aposta para o futuro, seja em relação a festas, cinema, ou publicidade. Aqui e agora ela já se mostra como grande uma ferramenta poderosíssima que viabiliza novos formatos de interação. Oras, se derrubamos barreiras físicas e não necessariamente precisamos compartilhar o mesmo espaço para criar intervenções visuais ao vivo, isso significa que podemos inventar muita moda de onde quer que a gente esteja! 


De onde vem a inspiração?

 

Inventar moda não é fácil. Ser VJ é estar constantemente em busca de referências, mesmo que inconscientemente. Um filme, um clipe no youtube… a qualquer momento pode estalar uma ideia que faz todo sentido para o seu projeto. Por isso, a primeira dica é lançar um olhar sempre atento a tudo e absorver as referências. Isso, é claro, depois de desenhar seu projeto e definir os principais conceitos. A etapa de conceituação e briefing é crucial porque é a partir dela que tudo se desenvolve, mas sentir a energia do momento e das pessoas também é muito importante. Nada é engessado, muito pelo contrário… 

 

Depois, se ligar nas tendências e sites/perfis que compartilham imagens e projetos. Existe um universo vasto que possibilita descobertas diárias. Saiba onde procurar, participe de grupos, conheça outros artistas, troque conhecimento. 

 

Algumas referências para curadoria de conteúdo compartilhadas pelo pessoal do MIR para você mergulhar de cabeça e conhecer o trabalho de VJs do mundo todo:

 

Imagem: Beeple

 

Já em relação aos softwares, quem participou da oficina teve uma verdadeira aula, decifrando interfaces, códigos, técnicas e macetes. Os softwares usados/citados foram

 

Resolume Anima – Pago, mas a versão gratuita traz todas as funcionalidades (a diferença é que o projeto fica com marca d’água, mas é totalmente suficiente para quem quer se familiarizar e praticar o VJing. O Resolume controla e mapeia vídeo, luz, sons externos, e permite criar vários set-ups em um mesmo projeto. 

 

Unreal Engine – Um kit de desenvolvimento criado pela Epic Games e que vem sendo aprimorado há quase vinte anos. Engines são conjuntos de programas e bibliotecas que funcionam como utensílios genéricos para itens como criação de personagens, cenários, e a programação da inteligência artificial em projetos. Esse é um software mais complexo: um pouco de VJ, um pouco de programação… 

 

OBS – Principal software gratuito de streaming e gravação, que permite várias integrações. 

 

Shotgun – Plataforma 100% voltada para eventos e festas online, tem inúmeras funcionalidades, exige uma ótima conexão que não deve ter a rede Wi-Fi como fonte.

 

Lumikit – Controle de iluminação. Incluir a iluminação, para além do som e vídeo, deixa o combo VJ ainda mais completo. 

 

Grandes eventos que se reinventaram e vale a pena conferir:

 

CCXP 2020: a Comic Con um superevento para fãs de HQ, filmes, livros e cultura cosplay. Neste ano, toda a programação foi digital, mais de 150 horas de conteúdos inéditos, 250 lives simultâneas e milhões de visitantes.  

 

Festival Amazônia Mapping: um dos mais importantes eventos de mapeamento do Brasil, que levou arte e tecnologia para o coração da Amazônia (em realidade aumentada, é claro). Assim como o Clubbers da Esquina, o festival foi redesenhado para acontecer online e com programação totalmente gratuita, nos transportando para uma ilha amazônica virtual!

 

Show game do Travis Scott no Fortnite: sim, os gamers do famoso jogo Fortnite vivenciaram ~~ de pertinho ~~ um show exclusivo do rapper Travis Scott. O evento bateu recorde de arrecadação da franquia Epic Games, e o artista faturou 20 milhões de dólares com o projeto. Pabllo Vittar e Charlie XCX também já se apresentaram dessa forma no jogo Minecraft. 

 

 

Seja na noite ou em eventos corporativos, hoje não é possível falar dos processos de criação visual sem pensar em intervenções online. Estamos nos transformando. Todo o fluxo de produção e pesquisa de conteúdo, bem como as mixagens visuais, são um universo em constante expansão. Para além de camadas, formas e modulações, “VJzar” é arte sinestésica, e os sentidos somos nós quem imaginamos, criamos, reinventamos e… sentimos.   

 

A sementinha foi plantada. Além de todo o aprendizado técnico e da imensa troca que rolou entre a turma e os integrantes da MIR (que estão mega satisfeitos com o resultado de sua primeira oficina), já existem planos para o pós-pandemia. Agora, em um grupo do Telegram, o papo continua — e já existem convites para os alunos participarem do projeto de visuais da próxima Mientras Dura presencial, bem como planos para mais oficinas ministradas pela MIR. É sobre isso!